MINHAS ORIGENS, MINHAS RAIZES, MINHA FAMÍLIA, BASE DA MINHA FORÇA E DETERMINAÇÃO DIANTE DAS LUTAS!!!

 







Nas fazendas de cana de açúcar, no tocar das boiadas, nos fornos das carvoarias assim como nas pontas dos chicotes, nasceram minhas dores e demandas, minhas indignações e medos. Nos campos da crueldade humana, nasceram também meus ímpetos de luta por sobrevivência, por respeito e dignidade. O mesmo espaço desumano me obrigou a manifestar minha coragem e determinação sem faltar com os abraços, afetos, sorrisos, levezas e muita disposição para ajudar a transformar dor em alívio, escravidão em liberdade e  preconceito em respeito. 

Só através da coletividade, da união entre  pessoas é que podemos destruir o processo escravagista ainda existente em pleno século 21 e o preconceito que é segregador, empobrecedor e destruídor de vidas. 

Marquês de Pombal por meio de decreto,  renomeou o povoado para Vila de Nova Abrantes do Espírito Santo. Expulsou os jesuítas e dominou a região que hoje é  Simões Filho e Camaçari, que eram formadas por grandes engenhos de cana-de-açúcar e fazendas. Uma delas era a Fazenda do Mocambo, submersa pelo rio Joanes no distrito Pitanga de Palmares. Essa fazenda foi apenas um dos locais de calvário dos nossos antepassados.


ORIGEM:

Em 1558, as margens do Rio Joanes na região hoje denominada como  Camaçari BA, surge as Aldeias do Divino Espírito Santo, construídas pelos jesuítas João Gonçalves e Antônio Rodrigues. Logo depois, foi instalada a Companhia de Jesus, um espaço para catequização dos índios tupinambás que viviam na região, com a finalidade de "educar" os índios. Por acaso, são esses mesmos índios que  até hoje tentam nos ensinar a preservar a natureza.

NA REGIÃO DE CAMAÇARI BA, as margens do Rio Joane, em uma das fazendas de cana-de -açúcar e de gado de corte, vivia ou "sobrevivia" uma escrava que, além das marcas da violência em seu corpo, gerava também em seu ventre um menino. Ela não segura a emoção ao ver e ouvir os fogos de artifício festejando a assinatura da Lei Áurea pela Princesa Isabel e ali mesmo onde estava, deu a luz ao seu filho que nasceu livre, para a alegria e alívio de sua mãe.

Esse menino era Jovenço Chaves! Nasceu no dia 13 de maio de 1888, dentre outros irmãos. 

Mas no  dia 14 de maio, a tão sonhada liberdade se torna um pesadelo, pois não sabiam para onde ir ou o que fazer. Foram jogados nas ruas para fora das fazendas.

Então se deslocaram para o Quilombo mais próximo, que era o Quilombo da Pitanga. Jovenço cresceu no quilombo, foi tocador de boi e se casou com uma índia. Importante lembrar que os povos originários índios e índias do Brasil, durante o violento processo colonizador dos portugueses, para que pudessem se casar, teriam que ser batizados com um nome não indígena. Então a Índia recebeu o nome de Maria Lucidia Pereira, para o casamento. A expressão "pega no mato a dente de cachorro", era muito  utilizada na época, geralmente quando acontecia o convívio com alguém da tribo indígena  com outras pessoas não indígenas.

Assim se deu parte da história da minha avó Índia, trabalhadora da roça, dona de casa e meu avô, filho de escravo, tocador de boi, roçeiro e ambos moradores do mesmo quilombo, meus avós maternos.

A origem do meu pai não foi em nada diferente. Pedro Marques seu pai, também filho de escravo de fazendas assim como Eulália sua mãe e que, a partir de 14 de maio de 1888,  também tiveram que sair por aí, em busca de abrigo e sobrevivência porque a assinatura da Lei Áurea foi na verdade, um presente para os imigrantes europeus mas um corte profundo na alma dos descendentes africanos e indígenas escravizados. 

O meu pai, também teve sua origem no mesmo Quilombo da Pitanga. Aos 7 anos já trabalhava fazendo carvão nos fornos da região. Também tocava gado e cuidava das roças assim como minha mãe que além de plantar e colher, era dona de casa. Assim resolveram se casar.

Nessa época, já havia escola no quilombo sustentada pela igreja católica, mas os pais de minha mãe impediram ela de frequentar para não aprender a ler e escrever cartas para namorado. 

Minha mãe foi alfabetizada aos 40 anos de idade aproximadamente. Com seus filhos e filhas já adultos que a apoiaram e participaram desse momento. 

Meus pais saíram do Quilombo da Pitanga, andaram cerca de 50 km até outro local, o Quilombo dos Macacos. Ali iniciaram uma união e lutaram para mudar de vida. Contra todas as estatísticas, foram 17 gestações, 9 filhos vivos, muita dor e dificuldades nas necessidades básicas mas nunca faltou fé, confiança e determinação para lutar por melhorias para toda a família. 

Hoje, seus filhos herdaram os mesmos princípios de fé, respeito, empatia e determinação para continuar nas lutas e mudanças sempre para o melhor, sem perder a essência, a história das nossas origens.

Nossos pais sabem que o Quilombo ainda vive em nós! Quilombo representa união, força, fé, acolhimento, empatia, amor e resistência! Continuaremos a mostrar de forma viva que é possível mudar para o bem e transformar situações de dor em alívio. Sabemos também que nossos avós e bisavós, nossas origens e especialmente Damião Marques e Maria Lucidia nossos pais, se orgulham de cada filho e filha, netos e netas. De cada um que lutou e luta com fé, determinação e unidade! Cada um que resiste, insiste e persiste para construção de um mundo melhor, justo, respeitoso e com oportunidades para todos. 


Um mundo onde nossas crianças ao crescerem, possam contar outras histórias que não seja a da dor, da violência e sim de transformação, de ajuda mútua e assim, daremos seguimento com as contações de histórias da evolução das pessoas para a construção de um mundo melhor.

A Consciência Negra ocorre  desde o dia primeiro de dezembro até 30 de outubro, pois no mês de NOVEMBRO devemos festejar a memória de quem sofreu e luta por um Brasil sem preconceito, sem apartheid. 


Valdomiro Marques 

Filho de Damião e Maria, neto de Jovenço e Maria Lucidia e também de Pedro Marques e Eulália Marques. 


Hoje com mais de 350 famílias, o Kilombo da  Pitanga do Palmares continua a existir! Já protegeu e salvou muitas vidas, inclusive dos meus avós e dos meus bisavós, das minhas origens, assim como o Quilombo dos Macacos onde nasci e vivi até meus 5 anos de idade.

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